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  • Markus Lothar Fourier

E se você não pudesse mudar nada em você



Parece óbvio dizer que todas as pessoas que chegam à psicoterapia desejam mudar. Só que, por vezes, o foco da mudança está onde não é possível mexer. Uma vez que nossa personalidade está formada -- algo que, segundo Fonseca (2018)*, acontece por volta dos 5 ou 6 anos de idade --, algumas de nossas características tornam-se bastante cristalizadas e não podem ser removidas ou reestruturadas, no máximo polidas, aparadas ou pintadas, como uma espécie de acabamento final.


Isso significa dizer que algumas das nossas dificuldades na vida, decorrentes de comportamentos muito arraigados em nossa personalidade, nunca deixarão de existir por completo.


Inconscientes dessa constatação, muitos de nós desenvolvemos um padrão relativamente comum, que é o de querer mudar algo que não pode ser mudado. Para essa condição tão corriqueira, uma pergunta que pode ajudar é:


E se você não pudesse mudar nada em você, como você viveria a vida? Como você lidaria com os problemas que tem na vida?


Se o problema são os comportamentos que nascem de sua ansiedade, por exemplo, e você não consegue deixar de senti-la, o que você poderia fazer?


Pode parecer que esse impasse depõe contra a psicoterapia, mas na minha opinião é justo o contrário. Há muito território novo a ser explorado nessa direção.

Radley (2002)**, nos dá indicações das saídas possíveis para essa questão. Ele estudou pessoas com doenças que não tinham uma cura e descobriu que a forma de lidar com suas condições fazia enorme diferença na qualidade de vida dessas pessoas. Aqueles que negavam a doença ou não se comprometiam com o tratamento médico tendiam a agravar suas condições e suas vidas pioravam. Já aqueles que aceitavam seus estados e acatavam os tratamentos afirmavam que suas vidas tinham inclusive melhorado em relação ao período anterior à descoberta de suas mazelas.


Pessoas com problemas no coração que aceitaram sua condição passaram a levar um estilo de vida mais saudável, passaram a se alimentar melhor e a se exercitar mais, além de dedicarem mais tempo para as relações que consideravam importantes, como familiares e amigos, coisas que eles não faziam até saberem de seus problemas.


A diferença fundamental entre os dois públicos estava na aceitação de suas condições, mas não uma aceitação passiva, resignada e fatalista, mas uma aceitação ativa, que permite reconhecer onde se está para criar as estratégias que permitirão chegar aonde se deseja. Para chegar aonde quero chegar, primeiro preciso saber de onde estou saindo, certo? Entre outras coisas, essa aceitação me permite acessar os recursos que estão disponíveis aqui, agora. Algo que fica impedido se eu negar minha condição atual, pois tudo o que me remete a ela estará fora do meu alcance.


A pesquisa de Radley nos mostra que a saída, quando nos deparamos com coisas que não podemos mudar, pode estar em mudar nossas formas de enfrentamento. Podemos desapegar das estratégias que utilizamos e que nos trouxeram até aqui, para focar nos passos seguintes e nas necessidades, pois é possível que exista mais de uma forma para encontrar aquilo que precisamos para viver uma vida interessante.


*Fonseca, José. Essência e Personalidade: elementos de psicologia relacional. São Paulo: Ágora, 2018.

**Radley, Alan. Worlds of Illness: Biographical and Cultural Perspectives on Health and Disease. Londres: Routledge, 2002

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