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Por que decidir retornar à clínica?



Em 2012, junto com a minha formação em Psicodrama, comecei a experimentar o teatro. Me inscrevi em um grupo teatral da universidade e vim para São Paulo fazer meus primeiros cursos de improvisação. Nessa época eu já estava fazendo algumas experiências selvagens misturando psicologia, psicodrama e improvisação teatral. Os primeiros resultados eram tão empolgantes que eu me deslumbrei. Tive a certeza que poderia salvar o mundo com essa mistura mágica. Eu enxergava tantas possibilidades de usar essas teorias que, em 2015, recém formado na Psicologia, decidi mudar para São Paulo e investir 100% do meu tempo nisso. Como eu já tinha uma formação e experiência prévia com gestão, decidi dar um foco maior no desenvolvimento de serviços para esse universo.

Como todo começo, tudo parecia distante e difícil. Eram muitas coisas para planejar e organizar e quem me conhece sabe que esses não são meus maiores talentos. Pobre da Gabriela Treteski, minha amiga e sócia, que precisava fazer as vezes da realidade e me aterrar. Era muita ansiedade e vontade de fazer a coisa dar certo, embora até hoje eu ainda me pergunte o que é dar certo.

Um dia decidimos pedir ajuda a um colega suíço, Renatus Hoogenraad, que fazia naquele país exatamente o que queríamos fazer aqui no Brasil. Ele topou ser nosso mentor e como primeira tarefa nos pediu para acessar nossa rede de conhecidos para compartilhar nossas dúvidas e avanços. Nessas conversas tínhamos uma meta: pedir que essa pessoa nos apresentasse para mais uma pessoa com quem poderíamos conversar. A ideia nunca poderia ser vender, e sim conversar e trocar experiências. Segundo ele, isso faria nossa rede crescer e as portas naturalmente se abriram, pois as pessoas gostam de ajudar. Essa tarefa foi um organizador e tanto, nos deu foco e começou a mostrar uma luz no fim do túnel.

Eu estava bastante empolgado com os primeiros resultados, tão empolgado que, num fatídico dia, em um café da Vila Madalena, na mesa ao lado, estava o Gustavo Gitti. A Gabi, que era fã dele, havia compartilhado comigo alguns textos de sua autoria que eu achei simplesmente bárbaros. Não tive dúvida, olhei para a Gabi e disse:

- Vamos lá falar com ele! Era isso que o nosso mestre dos magos alpino, nos aconselharia. A Gabi, preciso dizer, tentou fazer seu papel de Realidade e ponderou que talvez não fosse interessante abordar um estranho e pedir um minuto da sua atenção e ajuda. Você que lê obviamente concorda com ela, mas eu naquela hora ignorei a “realidade”. Me aproximei do Gustavo, me apresentei, expliquei a proposta de aumentar nossa rede, pedir ajuda e salvar o mundo. Ele muito tranquilamente concordou em nos ouvir. Rá! Na sua cara, bom-senso!

Durante uns 5 minutos, falei ininterruptamente, expliquei que era mágico, que servia para tudo e para todos, que eram bom para as empresas, que as lideranças seriam diferentes depois que experimentassem, que o Brasil seria Hexa se a seleção nos desse uma chance...Quando terminei, ele, com a mesma calma que havia aceitado nos ouvir, disse que achava que não poderia nos ajudar muito. Eu congelei, fiquei parado por alguns segundos e sem mexer muito a face perguntei:

- Por que não?

E ele respondeu: - porque eu não trabalho dentro dessa lógica de cultura do sucesso, eu trabalho para a cultura da saúde. O que eu faço não tem como objetivo fazer da pessoa um melhor líder, nem conquistar mais coisas. O que eu faço ajuda ela a se conhecer e viver melhor, só isso. Acho que o que vocês fazem não está alinhado com o que eu faço.

Bom, nessa hora eu já estava gritando por dentro, irritado com o fato de ele não ter entendido que o que nós fazíamos era o máximo. Não tinha nada de cultura de sucesso nisso, eu dizia para mim, internamente, enquanto eu mordia a boca por dentro para me controlar. Eu ainda tentei explicar melhor, e ele ouviu pacificamente, mas a resposta dele não mudou. Vendo que o assunto havia se esgotado ali, agradecemos e fomos embora. No caminho de volta fui achando infinitos argumentos para provar (para mim) que eu não estava trabalhando para a cultura do sucesso.

Os anos foram se passando, o negócio foi ganhando forma e consistência, mas volta e meia aparecia o Gustavo na minha memória para não me deixar curtir em paz os frutos colhidos. Cada vez mais eu dava o braço a torcer e admitia que eu estava mais a serviço das empresas do que das pessoas. Foi em janeiro de 2020 que decidi fazer uma mudança nos rumos e retomar minhas atividades com a psicologia clínica. Claro que ainda usando todas as ferramentas que eu desenvolvi ao longo desses anos, mas agora com um foco diferente. Quero acreditar que hoje estou à serviço da saúde e não mais do sucesso. O caminho está só começando, mas ele já me trouxe uma sensação maior de congruência, o que é bom sinal. Espero um dia encontrar o Gustavo Gitti naquele mesmo café e poder agradecer a ele pelas boas provocações.

Para você que teve a paciência de ler esse texto até o final, muito obrigado, espero que essa história possa ser útil de alguma forma. Em breve eu compartilho aqui os desdobramentos dessa nova caminhada.

Fiquem bem ;-)



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