O que é liberdade?
- Markus Lothar Fourier

- há 1 dia
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Eu me lembro até hoje do dia em que aluguei um apartamento pelo Airbnb para participar de um congresso em Brasília. Quando entrei no apartamento, havia um quadro posicionado bem de frente para quem entrava. Esse quadro trazia a seguinte frase, atribuída ao Buda: “Não fiz nada do que gosto, fui livre”.
Aquilo me causou um estranhamento imediato e me fez pensar bastante, pois eu não conseguia entender, na hora, o que aquela frase budista queria dizer.
Acho que fui compreendendo melhor esse conceito na medida em que entrei na clínica, comecei a atender e a estudar. Lembro-me de uma professora que, durante o estudo de um caso, nos fez a seguinte pergunta sobre o paciente:
“Essa pessoa consegue escolher fazer mais ou ela faz mais compulsoriamente?”
Tratava-se de alguém que gostava muito de contribuir, de participar, e estava sempre envolvido em mil e uma atividades. Aquela pergunta ficou gravada na nossa mente. O que a professora nos ajudou a perceber — e que o caso foi tornando cada vez mais evidente — é que a compulsão daquela pessoa por estar sempre ativa era, paradoxalmente, a forma dela fugir do desconforto de ficar a sós consigo mesma. Dizer não gerava tanta ansiedade, e o silêncio era tão insuportável, que o trabalho e o engajamento constante se tornaram o hedonismo disfarçado dela: uma maneira de buscar prazer e evitar, a todo custo, o confronto com o vazio interior.
Na clínica, é possível observar um padrão que merece atenção: pessoas que constroem a vida — às vezes de forma bastante sofisticada — de modo a fazer somente o que gostam. Evitam o desconforto, contornam as obrigações que não lhes aprazem, recusam tarefas que não despertem entusiasmo imediato. À primeira vista, isso pode parecer autoconhecimento ou autocuidado. Mas há, nesse arranjo, uma armadilha silenciosa.
Quando a vida se organiza apenas em torno do prazer imediato — do que agrada, do que estimula, do que diverte —, ela começa, paradoxalmente, a se estreitar. O repertório de ações possíveis vai diminuindo. A pessoa não desenvolve tolerância ao tédio, à frustração, à espera. Qualquer tarefa que exija esforço sem gratificação imediata torna-se difícil de sustentar.
O que parecia ser liberdade — fazer o que se quer — vai se revelando, pouco a pouco, como uma forma de aprisionamento. A pessoa não é livre para escolher qualquer coisa; ela só consegue seguir o que o prazer imediato dita.
O resumo do que estou tentando trazer aqui é que, às vezes, tendemos a pensar que liberdade é fazer o que a gente quer ou o que a gente gosta. No fundo, porém, liberdade é conseguir fazer escolhas; é estar livre para escolher — inclusive escolher algo difícil, algo que não nos agrada de imediato, algo que exige de nós.
A partir do momento em que uma pessoa só consegue fazer o que gosta e não consegue mais atender a certos pedidos, lidar com a realidade ou topar fazer o que precisa ser feito, algo importante se perdeu. Não se trata apenas de falta de disciplina. Trata-se de uma perda da capacidade de tolerar o desconforto — e, com ela, da própria autonomia.
Há uma diferença crucial entre não querer fazer algo e não conseguir fazer algo. O primeiro é escolha. O segundo é limitação. Quando a vida se organiza unicamente em torno do prazer imediato, o leque de ações vai se estreitando — e o que sobra não é liberdade, mas uma espécie de onipotência frágil, que exige que o mundo se adapte constantemente às preferências do sujeito.
Alguns pacientes chegam ao consultório com uma narrativa que, no começo, soa quase como conquista: eles aprenderam a dizer não, a priorizar a si mesmos, a não fazer o que não querem. Há algo valioso nisso, sem dúvida. O problema surge quando esse movimento vai longe demais — quando a recusa ao desconforto se torna total.
Nesses casos, não se trata mais de saúde ou autocuidado. Trata-se de uma busca por onipotência: a fantasia de que é possível viver inteiramente dentro do prazer, sem jamais ter que suportar o que é árido, cansativo ou frustrante. Uma vida que existe somente nos seus pontos altos.
A realidade, porém, não funciona assim. Relacionamentos exigem conversas difíceis. Trabalhos relevantes passam por fases de tédio e esforço. Vínculos afetivos pedem que se esteja presente mesmo quando não há disposição. Uma vida que evita sistematicamente tudo isso não é uma vida mais livre — é uma vida mais pobre.
É importante, neste ponto, oferecer uma distinção que pode proteger o leitor de uma leitura equivocada. Reconhecer que o desconforto tem valor não significa que todo desconforto deva ser suportado. Há uma diferença fundamental entre o autocuidado genuinamente saúdável e a evitação patológica — e essa diferença reside não no ato em si, mas no motivo por trás dele.
O autocuidado visa preservar a energia e a integridade para o que realmente importa. É dizer não ao ambiente de trabalho abusivo para proteger a saúde mental. É recusar uma demanda excessiva que tornaria impossível honrar os próprios compromissos. Nesses casos, o desconforto evitado é genuinamente nocivo — o atrito que quebra a engrenagem, não o que a faz girar.
A evitação patológica, por outro lado, visa eliminar todo e qualquer atrito da vida — inclusive os atritos necessários para o crescimento. É dizer não a uma conversa difícil com o parceiro para “proteger a própria paz”. É abandonar um projeto no primeiro momento de tédio. É recusar qualquer pedido que não traga prazer imediato.
A pergunta que distingue um do outro não é “Estou sentindo desconforto?” — pois ambos podem gerar desconforto. A pergunta é: “Estou evitando algo genuinamente nocivo, ou estou evitando algo que simplesmente me exige?” Essa é a régua psicológica que transforma a reflexão sobre liberdade numa ferramenta útil, e não numa justificativa para o sofrimento desnecessário.
O ponto central dessa reflexão é questionar: eu sou livre para escolher ou faço as coisas apenas quando elas me agradam? Consigo tolerar o desconforto quando a situação pede, ou preciso que a vida se molde sempre às minhas preferências?
A saúde mental não é a ausência total de impulsos ou desejos — eles sempre estarão lá. A saúde está na capacidade de criar um espaço entre o impulso e a resposta. De sentir a vontade de recusar o que é difícil e, ainda assim, poder escolher enfrentá-lo. De não ser tiranizado pelo próprio prazer.
Esse espaço não é um lugar calmo e zen. Ele existe dentro do próprio desconforto. Pode ser simplesmente o ato de respirar fundo quando a vontade de fugir de uma reunião difícil sobe à garganta. É notar o calor no pescoço, o aperto no peito, a urgência de sair — e ainda assim escolher ficar na cadeira por mais cinco minutos. Pense no momento em que a respiração pausa entre a inspiração e a expiração: aquele milissegundo de suspensão antes que o automático tome conta. É nesse intervalo minúsculo que a escolha consciente intervem.
Não se trata de heroísmo. Trata-se de uma prática cotidiana e modesta: reconhecer o impulso, deixá-lo existir sem obedecê-lo imediatamente, e então decidir o que fazer. Com o tempo, esse intervalo entre sentir e agir vai se alargando — e é aí que a liberdade, de fato, mora.
Volto, então, à frase que me intrigou naquele apartamento em Brasília: “Não fiz nada do que gosto, fui livre”. Entendo agora que o Buda não estava fazendo um elogio à vida cinzenta. Estava dizendo algo muito mais preciso: tive a flexibilidade de tolerar o desconforto, de não ceder ao impulso imediato, de agir segundo o que era saudável — e foi assim que encontrei a liberdade.
"Liberdade, no sentido mais profundo, não é a ausência de limites.
É a capacidade de escolher, mesmo quando a escolha é difícil".



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