top of page

Sobre dialogar e resolver problemas

  • Foto do escritor: Markus Lothar Fourier
    Markus Lothar Fourier
  • 15 de set. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 16 de dez. de 2025

Em minha prática clínica e também na experiência com equipes em contextos organizacionais e esportivos, um dos desafios mais recorrentes é este: como abordar alguém quando estamos genuinamente preocupados com seu bem-estar? A intuição sugere que quanto mais cedo intervirmos e mais argumentos tivermos, melhor. 


O problema é que, muitas vezes, essa intervenção, por conta da nossa preocupação, assume uma forma estratégica: planejamos argumentos, antecipamos respostas, organizamos recomendações, e entramos na conversa com a intenção de ajudar o outro. Embora bem-intencionada, essa abordagem frequentemente resulta em defensividade e ruptura da relação. O diálogo se fecha.


Para aprofundar, acho que vale destacar o problema da preocupação no diálogo. Quando você se preocupa com outra pessoa, a sua preocupação na verdade é uma mistura de duas coisas: a preocupação com a pessoa em si e a preocupação com a sua própria capacidade de ajudar. Essa preocupação se baseia em antecipações—em adivinhar o que vai acontecer. Você se questiona: "O que acontece se eu não fizer nada?" ou "O que acontece se eu fizer isso ou aquilo?". Essas antecipações são totalmente subjetivas, baseadas na sua experiência e na sua forma de enxergar o mundo.


O campo do Diálogo Aberto¹ tem mostrado uma alternativa mais promissora: a abordagem dialógica. Em vez de se colocar no lugar de quem detém as respostas, o interlocutor compartilha sua preocupação, reconhece suas limitações e, sobretudo, convida o outro a colaborar na construção de sentido. É uma inversão sutil, mas importante, onde paramos de dizer “você tem um problema” para “eu tenho uma preocupação e preciso da sua ajuda para compreendê-la”.


Casos práticos ilustram bem essa diferença. Em uma creche na Finlândia, relatada por Satu Antikainen, a equipe educadora chamou a mãe de um menino de dois anos, Juca, para expor uma lista de dificuldade: atraso motor, timidez, resistência à interação. A intenção era legítima, mas a forma, centrada no diagnóstico e na prescrição, levou a mãe a sentir-se julgada. O resultado foi desastroso: ela retirou a criança da instituição.


Pouco tempo depois, diante de uma situação semelhante com outra criança, Lisa, a mesma equipe decidiu mudar de estratégia. Reconheceram entre si o medo da reação da mãe, prepararam a conversa a partir de exemplos concretos e, principalmente, abriram espaço para ouvir como ela vivia a situação em casa. Além disso, destacaram aspectos positivos da relação mãe-filha. O desfecho foi diametralmente oposto: a mãe se sentiu ouvida, compartilhou suas próprias preocupações e contribuiu com ideias para apoiar o desenvolvimento da filha.


Essas experiências ilustram a diferença entre relações estratégicas — centradas em controle — e relações dialógicas — centradas na abertura ao outro. O filósofo Emmanuel Levinas denomina esse princípio de alteridade: reconhecer que o outro é irredutivelmente diferente de nós e que impor diagnósticos ou soluções significa desconsiderar essa diferença fundamental. Bakhtin, por sua vez, nos lembra ainda que nossas palavras nunca são neutras: sempre carregam antecipações, premissas e convites a certas respostas. Nossa percepção não é neutra. Nós enxergamos o mundo em relação à nossa própria capacidade de agir e de nos relacionar com as coisas e as pessoas. A forma como vemos o mundo é, no fundo, a forma como vemos as nossas próprias possibilidades de ação nele. Ter consciência dessas diferenças fundamentais de perspectiva, forma de pensar e do subtexto implicado na nossa fala possibilita que o diálogo não seja um monólogo disfarçado, mas sim um diálogo consciente.


Na prática, essa inversão metodológica traz resultados consistentes. Um estudo relatado pelos autores Tom Arnkil e Esa Eriksson mostrou que, antes de adotarem essa postura dialógica, apenas 32% dos profissionais acreditavam que uma conversa sobre preocupações sérias poderia ter um desfecho positivo. Após a implementação da abordagem baseada no pedido de ajuda e no reconhecimento mútuo, o índice de experiências positivas subiu para 66%. É praticamente o dobro.


Esses números nos lembram que não se trata de uma técnica retórica, mas de uma postura ética e relacional. A defensividade tende a diminuir quando o interlocutor percebe que não é acusado, mas convidado a colaborar. Essa mudança pode ser aplicada em múltiplos contextos: na clínica, em ambientes organizacionais, na prática esportiva e também nas relações familiares ou profissionais.


Em última análise, trata-se de trocar controle por conexão. Em vez de acumular argumentos para convencer, abrimos espaço para a construção conjunta de sentido. Como psicólogos e, arrisco dizer, como seres humanos em geral, somos chamados a exercitar essa humildade: reconhecer que não temos todas as respostas e que, muitas vezes, o primeiro passo para o cuidado é justamente pedir ajuda.


Em qual relação da sua vida uma conversa difícil poderia se transformar se, em vez de iniciar com “acho que você deveria…”, começasse com “tenho uma preocupação e gostaria da sua ajuda para compreender melhor”? Talvez, essa simples inversão possa ser o ponto de virada para relações mais autênticas e construtivas.


Diálogos Abertos
Diálogos Abertos

Referência


1 - SEIKKULA, Jaakko: ARNKIL, Tom Erik. Open Dialogues and Anticipations: Respecting Otherness in the Present Moment. Helsinki: National Institute for Health and Welfare, 2014.


2 - BAKHNTIN, M. (1981) Dialogic imagination. Austin: Texas University Press.


3 - BORDIEU, P. (1998) Practical reason: On the theory of action. Cambridge: Polity Press


4 - GAL’PERIN. P. Ya. (1969). Stages in the development of mental acts. In M. Cole & I. Maltzman (Eds.), A handbook of contemporary Soviet psychology (pp. 249-273). New York: Basic Books.


5 - LÉVINAS, E. (2004). Totality and Infinity: An Essay on Exteriority. Translated by Alphonso Lingis. Pittsburgh: Duquesne University Press.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

Markus Fourier

Psicólogo CRP 06/155904

R. Havaí, 78 - Sumaré, São Paulo

Daimon - Centro de Estudos de Relacionamento

Próximo da estação de metrô Vila Madalena

bottom of page