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  • Markus Lothar Fourier

A ansiedade nossa de cada dia

Desde que voltei à clínica, o tema da ansiedade é algo que vem me atormentando. Por um lado, porque o sentimento ocasionalmente me atinge, e por outro, porque é uma demanda frequente dos pacientes que procuram meu atendimento. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 18,6 milhões de brasileiros sofrem de ansiedade, colocando o país no primeiro lugar do ranking mundial. Diante disso, decidi compilar aqui, em formato de texto, algumas de minhas anotações e materiais de estudo, com o objetivo de ajudar a entender melhor este fenômeno que, apesar de não ser moderno, é cada vez mais presente em nossas vidas. Porém, é importante destacar que este conteúdo não deve ser usado como forma de autodiagnóstico. Acho que essa é uma prática perigosa e sempre defenderei que, em caso de dúvida, é necessário procurar um profissional de saúde mental para uma avaliação adequada. Dito isso, vamos ao assunto em questão.


Aqui coloquei um índice com as perguntas que procurei responder no texto. Se preferir, basta clicar no link para ir direto para a parte que te interessa.



O que é ansiedade?

Eu costumo entender a ansiedade como uma resposta emocional normal a situações estressantes ou ameaçadoras. Podemos dizer que a ansiedade é uma variação do medo, só que um medo de algo que está no futuro. Ela é experimentada tanto pelos seres humanos quanto pelos animais. A diferença entre nós e os outros seres é que eles só sentem ansiedade diante de situações como o barulho de um predador e deixam de sentir assim alguns instantes após o desaparecimento do estímulo. Já nós, seres conscientes, sentimos ansiedade por coisas imateriais e inespecíficas, que não podem nos matar de fato, assim como também sentimos ansiedade por coisas que estão muito no futuro, como a morte ou uma apresentação para colegas da empresa ao final do mês.


Como a ansiedade se manifesta e como saber se estou passando por um momento de ansiedade?

A ansiedade se manifesta através de uma série de sintomas físicos e psicológicos, incluindo:

  1. Preocupação excessiva;

  2. Medo intenso; tensão muscular;

  3. Sudorese;

  4. Batimento cardíaco acelerado;

  5. Fadiga;

  6. Insônia;

  7. Dificuldade de concentração.

Na minha prática clínica, muitas vezes as pessoas que buscam tratamento para a ansiedade apresentam sintomas como excessos de pensamento, dores no peito ou cabeça, e dificuldades para se concentrar nas tarefas diárias.


A forma mais segura para saber se você está sofrendo de ansiedade é buscar um profissional de saúde mental para a realização de um diagnóstico adequado. Esse processo geralmente considera:

  1. Histórico clínico: onde se investiga o histórico médico, incluindo sintomas, duração e frequência.

  2. Entrevista clínica: que acontece por meio de uma conversa aprofundada e com perguntas detalhadas sobre os sintomas de ansiedade, incluindo seu impacto na vida cotidiana.

  3. Exames físicos: em alguns casos, é possível que sejam solicitados exames físicos para descartar outras hipóteses para os sintomas.

  4. Escalas de avaliação: uma forma bastante comum de avaliar a ansiedade é por meio de escalas de avaliação ou testes, como a Escala de Ansiedade de Beck, para medir a gravidade dos sintomas.

O diagnóstico preciso de ansiedade é importante para o planejamento adequado do tratamento e para garantir o sucesso a longo prazo.


Se você tem dúvidas sobre estar sofrendo de ansiedade ou se a busca por um profissional de saúde não seja uma opção para você neste momento, seguem aqui alguns sinais que meu colega, Ilan Segre, descreve em sua reportagem para o O Globo:

  1. Agitação constante ou dificuldade para desligar;

  2. Movimentos excessivos dos braços ou pernas;

  3. Preocupação excessiva consigo mesmo ou com pessoas queridas;

  4. Medo de que algo ruim vá acontecer a qualquer momento;

  5. Incapacidade de relaxar, mesmo quando o momento é oportuno;

  6. Necessidade de estar sempre conectado às redes sociais;

  7. Dificuldade de concentração;

  8. Fadiga desproporcional.

Segundo Ilan, se você tiver qualquer um destes sintomas por pelo menos duas semanas, já dá para considerar que você está vivendo um período de ansiedade. Nestes casos vale a pena buscar um profissional para te ajudar.


Quais são as causas da ansiedade e porque esse fenômeno vem aumentando?

Bom, de acordo com a literatura, esse fenômeno é multicausal e os principais fatores encontrados nas pesquisas são:


  1. Fatores Genéticos: sabemos que em famílias onde já existe um histórico de diagnóstico de ansiedade, é mais comum encontrar nas gerações mais novas o mesmo problema.

  2. Traumas e estresses: eventos estressantes na vida, como perda, mudança ou abuso, podem desencadear ansiedade.

  3. Personalidade: pessoas com padrões de pensamento e comportamento mais perfeccionistas ou pessoas com um padrão de preocupações e medos excessivos têm maiores chances de apresentarem quadros de ansiedade.

  4. Abuso de substâncias: o uso excessivo de álcool e drogas pode aumentar o risco de ansiedade.

  5. Doenças médicas: certas condições médicas, como distúrbios da tireóide ou problemas de saúde mental, podem contribuir para a ansiedade.

  6. Fatores ambientais: acho esse um dos pontos mais significativos para explicar o aumento dos quadros de ansiedade. Segundo meu colega, psicólogo e estudioso do tema, Ilan Segre, que recentemente deu uma entrevista sobre esse tema para o jornal O Globo, vivemos em uma época de hipervigilância e constante alerta, o que acaba gerando uma sensação de ameaça. Somo a esse pensamento o fato de que nos últimos anos, com a invasão das tecnologias em nossa vida cotidiana, as constantes notificações e vibrações dos celulares, resultam no fenômeno conhecido como "Fear of Missing Out" (FOMO), que em traduzido seria algo como "medo de estar perdendo algo importante". Essa hipervigilância, citada por Ilan, é evidenciada pela necessidade de checar o celular ao perceber uma vibração, responder mensagens não urgentes durante jantares e encontros. Qual é a primeira coisa que você faz ao acordar? Esse comportamento constante resultou em um estado de prontidão para responder a tudo e a todos a todo momento, e quando há um "vazio" na agenda, o cérebro busca algo para fazer, pois nos gera estranheza não ter nada para fazer.

Como a ansiedade pode afetar minha vida?

Os efeitos da ansiedade podem se manifestar de diferentes formas e dimensões da vida. De maneira geral os efeitos podem ser sentidos nas seguintes esferas:


  1. Parte Física: a ansiedade pode causar sintomas físicos, como sudorese, batimento cardíaco acelerado, fadiga, dores de cabeça, dores musculares e problemas digestivos.

  2. Parte Mental: A ansiedade pode afetar negativamente o humor e o pensamento, resultando em sentimentos de tristeza, irritabilidade, dificuldade de concentração e baixa autoestima.

  3. Nos Comportamentos: a ansiedade pode levar a comportamentos evitativos, como evitar situações sociais, evitar determinadas atividades ou não conseguir completar tarefas importantes.

  4. Nas Relações: a ansiedade pode afetar negativamente as relações interpessoais, resultando em dificuldades de comunicação, evitação de situações sociais e dificuldades de formação de relacionamentos íntimos.

  5. Saúde geral: a ansiedade crônica pode contribuir para a doença cardíaca, diabetes, distúrbios do sono e outros problemas de saúde.

Quais são os diferentes tipos de ansiedade?

De acordo com DSM-V, o manual de classificação de transtornos mentais da Associação Americana de Psiquiatria, existem diferentes manifestações e variações do que chamamos de transtornos de ansiedade. São elas:


  1. Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG): É caracterizado por preocupações excessivas e constantes sobre eventos ou atividades do dia-a-dia.

  2. Fobia Específica: É caracterizado por medo intenso e evitação de objetos ou situações específicas, como altura, animais ou lugares fechados.

  3. Transtorno de Pânico: É caracterizado por ataques súbitos de ansiedade intensa, com sintomas físicos como sudorese, taquicardia e tontura.

  4. Transtorno de Ansiedade Social (TAS): É caracterizado por medo intenso e evitação de situações sociais ou de performance.

  5. Transtorno de Ansiedade Traumática (TAT): É caracterizado por pensamentos e comportamentos repetitivos relacionados a um evento traumático, como um acidente ou violência.

É importante ressaltar que esta nomenclatura e forma de diferenciar os diagnósticos é psiquiátrica. Ela é importante para muitos fins, como o estabelecimento de uma conduta e protocolos de cuidados iniciais e como uma forma de saber por onde começar a tratar um sofrimento psíquico. No entanto, do ponto de vista psicológico, o olhar para as ansiedades é diferente e complementar. Quando buscamos a psicoterapia para tratar esses sintomas, nossa busca é pela função da ansiedade em nossas vidas. Queremos entender para que ela existe e a serviço de que ela está. Se quiser saber mais, no tópico abaixo explico melhor.


Qual a diferença entre um tratamento psiquiátrico e psicoterápico?

O tratamento psiquiátrico geralmente faz uso de medicações psiquiátricas que trabalham para a redução ou eliminação de sintomas associados à ansiedade. A psicoterapia trabalhará para compreender os motivos para o surgimento da ansiedade.


A classificação psiquiátrica é útil e importante no avanço dos estudos sobre saúde mental, mas apresenta limitações naturais de todo processo de criação de conhecimento. Toda definição é uma forma de delimitação. A limitação psiquiátrica é decorrente do fato de que toda experiência humana é individual e que, apesar de podermos sentir coisas semelhantes, nunca serão idênticas. Mesmo que você e eu tenhamos o diagnóstico de TAG, nossas TAGs serão diferentes. Quando entrevisto pessoas com o mesmo diagnóstico, percebo que cada uma tem suas particularidades em suas histórias e na forma como sente suas angústias. Além disso, os diagnósticos são organizados pelas semelhanças em suas características topográficas. Na psicoterapia, porém, a função de um determinado sintoma é mais importante do que sua topografia. Queremos entender para que serve o sintoma, qual a situação que ele ajuda a sustentar na vida do paciente e quais os ganhos que ele traz para a sua vida (todo sintoma traz um ganho conhecido como ganho secundário, mas sobre isso falarei em outro post). Por exemplo, minha ansiedade pode estar me protegendo de responsabilidades indesejadas, enquanto a sua pode estar protegendo-o de um término de relacionamento. Esse é um dos objetivos da psicoterapia: entender a função do sintoma na vida do paciente. Quando entendemos isso juntos, podemos explorar formas de lidar com o sofrimento.


Posso tratar ansiedade apenas com medicamentos psiquiátricos?

Eu, particularmente, não recomendo - e sei que meus colegas psiquiatras também não recomendam - tratar ansiedade apenas com medicamentos. Isso porque esse caminho nem sempre é eficaz para todas as pessoas. Embora os medicamentos psiquiátricos, como os ansiolíticos, possam aliviar sintomas de ansiedade em curto prazo, eles geralmente não são uma solução a longo prazo e podem ter efeitos colaterais significativos. A recomendação, nesses casos, é sempre a combinação de terapia, mudanças no estilo de vida, técnicas de relaxamento, e quando necessário, medicamentos.


Que tipo de psicoterapia devo procurar para ajudar a tratar a ansiedade?

Não é possível saber a priori qual é a melhor abordagem terapêutica para cada pessoa. Como disse anteriormente, a importância de compreender a função da ansiedade na vida da pessoa, cada situação tem suas particularidades e necessidades. O tipo de terapia mais eficaz para a ansiedade depende do indivíduo e da natureza de sua ansiedade.

A melhor forma de descobrir a terapia certa para você é conversar e "entrevistar" alguns profissionais antes. É importante perceber como se sente ao se relacionar com o profissional, pois é importante se sentir compreendido e seguro para poder se abrir verdadeiramente. O vínculo entre terapeuta e pessoa é um dos fatores mais importantes para o sucesso do tratamento.


O que mais posso fazer para diminuir minha ansiedade?

Existem muitas formas complementares que ajudam a reduzir a ansiedade. Você pode experimentar essas mudanças em sua vida, mas dependendo do nível de ansiedade que você venha experimentando, é pouco provável que elas tragam melhorias significativas. Quando a ansiedade começa a ficar significativa, penso ser o momento de buscar ajuda especializada.


  1. Exercícios físicos: exercitar-se ajuda regular e reduzir a ansiedade ao liberar endorfinas e reduzir o estresse.

  2. Mudanças de estilo de vida: mudanças de estilo de vida, como a prática de meditação, respiração profunda, yoga e alimentação saudável, podem ajudar a melhorar o bem-estar e reduzir a ansiedade.

  3. Terapia comportamental com animais: a terapia com animais, como a terapia com cães, pode ser eficaz para reduzir a ansiedade.

  4. Terapia ocupacional: a terapia ocupacional pode incluir atividades que ajudem a melhorar a autoestima, aumentem a confiança e reduzam a ansiedade.

  5. O tratamento ideal para a ansiedade depende de muitos fatores, incluindo a gravidade dos sintomas, a presença de condições médicas subjacentes e as preferências pessoais. É importante trabalhar com um profissional de saúde mental para encontrar o melhor tratamento para cada indivíduo.


A família e os amigos podem apoiar alguém com ansiedade?

Sim, familiares e amigos podem ser um apoio importante no tratamento da ansiedade. Se você tem uma pessoa próxima sofrendo de ansiedade, aqui vão algumas ideias e sugestões que podem ajudar:


Compreenda antes de qualquer coisa: procure ouvir mais do que falar, tente entender realmente a ansiedade da pessoa e como ela afeta sua vida. A ansiedade é uma condição real e não escolhida e tratar a pessoa com compaixão e compreensão pode ser valioso.


Não julgue ou critique: ofereça uma escuta sem julgamentos e críticas. A pessoa com ansiedade já pode estar se julgando e criticando bastante, então, você não ajudará se tornar mais um a "puxá-la para baixo".


Pergunte antes de dar conselhos: se você quer dar um conselho, pergunte se a pessoa deseja essa ajuda. Dar conselhos não solicitados geralmente traz mais desconforto do que realmente ajuda.


Seja paciente: o tratamento da ansiedade pode levar tempo e é importante ser paciente e compreensivo durante o processo. Buscar ajuda nem sempre é uma decisão fácil para algumas pessoas, e pode ser necessário muitas conversas até que ela se decida pelo tratamento.


Encoraje o tratamento: ajude a pessoa a buscar tratamento profissional, mas não a pressione.


Bom, espero que esse texto tenha ajudado de alguma forma. Mas lembre-se, se você não está bem e acha que precisa de ajuda, procure ajuda. Ansiedade e outras formas de sofrimento possuem tratamento.



Cuidem-se ;-)


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