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  • Markus Lothar Fourier

Por que tanto Burnout?




O aumento do burnout nos últimos anos tem sido atribuído, por pesquisadores, a vários fatores. Os principais, segundo a literatura científica, são: falta de autonomia e controle sobre o trabalho, conflito entre valores pessoais e as demandas do trabalho, a falta de reconhecimento e recompensas, a falta de apoio social no trabalho e a violência e assédio moral no ambiente de trabalho.

Eu acrescentaria a essa lista mais alguns fatores, que surgem do que escuto em meus atendimentos, somado a conversas, leituras e pensamentos que me surgem em torno deste tema. Acredito que exista uma pressão por produtividade e eficiência nas organizações, que leva a uma sobrecarga de trabalho e a uma maior exigência por parte dos empregadores, além da cultura de estar sempre conectado, que pode levar a uma sensação de estar sempre disponível e em constante pressão para responder a mensagens e e-mails, mesmo fora do horário de trabalho. É como se a gente negasse os limites. É como se pedíssemos ao Usain Bolt para continuar correndo cada vez mais rápido e ainda arrumasse tempo para participar de inúmeras videoconferências, respondesse a e-mails e mensagens de WhatsApp a qualquer hora do dia. Parece possível?

Outra ideia que, ao meu ver, contribui para o adoecimento no trabalho vem da ideia de que todos devem se sentir plenamente satisfeitos com o trabalho, mas será que isso é realmente possível para todo mundo? Algum nível de satisfação é importante, mas talvez a pressão por ser feliz no trabalho seja algo que não se sustente para muitas pessoas. Outra história que pode adicionar uma carga emocional desnecessária é a ideia de que todos têm um talento especial que, ao ser descoberto e empregado, dará destaque e realização profissional. Embora seja importante valorizar e explorar nossas habilidades, a ideia de que todos devem ter um talento especial pode levar a mais estresse e frustração no trabalho, especialmente para aqueles que não encontram uma forma de se destacar.

Por fim, ainda vejo um último fator que pode ser considerado nessa equação, cujo resultado é o burnout e outras angústias. No trabalho, existem relações de poder mais acentuadas e diretas, bem marcadas por meio dos organogramas. Segundo Fritz Perls, um fator de saúde fundamental é viver sem se preocupar com as expectativas dos outros. No trabalho, por conta das hierarquias, nossa possibilidade de escolher não atender a certas necessidades fica reduzida. O trabalho, de certa forma, é desenhado para estimular a lógica de que o desejo do de cima seja uma prioridade do de baixo, o que possivelmente prejudica nossa saúde mental.


Eu sei que a solução não é e nem poderia ser simples, dada a complexidade dessa realidade. Não vou aqui sugerir dicas ou ideias simplistas para resolver esse problema. Acredito que a solução para os problemas que o trabalho vem causando na saúde mental deverá ser construída a muitas mãos. Enquanto esse dia não chega, vale, ao menos, avaliar se você tem alguma margem de manobra que te permita encontrar um pouco mais de qualidade de vida. Será que existe alguma coisa, ainda que pequena, que você possa fazer para lidar menos com as expectativas dos outros? Ou algo que te dê um pouquinho a mais de autonomia ou suporte?


Enfim, era isso que tinha para compartilhar. Se seu trabalho está te consumindo, não deixe de procurar ajuda. A terapia pode ser um espaço para você pensar junto com alguém se existe alguma saída ou alternativa melhor. Afinal, duas cabeças pensam melhor do que uma.

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